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sábado, 14 de junho de 2014

Posted by Danilo Passos (dono) On 11:41
Os olhos. Eles acarretam inúmeras mensagens que o silêncio dos nossos rostos se transfigura. Era um casal bonito a ser visto por olhos alheios, mas as boemias da noite escondiam memórias e lembranças que ambos vivenciaram, algumas delas infames.
Em mesas diferentes, ela batia na madeira escura, com certa frequência, o seu anel prateado em seu dedo anelar. Cada toque vibrava sutilmente o vidro da taça de vinho posta na sua frente. Seus pés tremiam, à medida que o mesmo o se movimentava de forma impaciente e sagaz. Não desviava seu olhar da brilhante taça que abastecia um vinho brilhoso, se comparado com a luz da lâmpada de um dos lustres que iluminavam aquele local.
Os olhos fitavam o nada. E o nada era o vazio da mesa, que se preenchia com o toque pulsante de seu anel sob a madeira escura e o modesto vidro apanhado com a bebida.
Há poucos metros dali, estava ele. Inquieto. Com o seu celular em mãos, como se a única coisa que realmente importasse naquele instante era ver letras sendo transfiguradas por uma tela pequena que refletia uma forte luz em seu rosto. Um celular e seus olhos ao encontro do objeto, não mascarava a solidão que também pairava naquela mesa. Madeira fria, um eixo de luz brilhante e uma taça, acompanhada de champanhe. Como em uma sincronia, ele também tremia os pés, impaciente.
Gestos mapeiam o silêncio e camuflam pensamentos.
Era um casal de desconhecidos, se algum desconhecido passasse por lá naquele momento. Escondiam pensamentos a todo instante.
Tudo se tornou apenas um mero cenário, quando de minutos em minutos, os olhares deles tentavam se cruzar. Era rotineiro. Ela parava de bater com o seu anel na mesa e olhava intimamente para o ponto próximo dali. Para ele, debruçando seus dedos sob a tela do celular, respondendo (ou por ora visualizando) a letras que ofuscavam seu olhar. Sem retorno, um gole de vinho a fazia retornar a atenção ao seu "nada" e ao som impactante de seu anel sobre a mesa.
Ele, quando em algum momento, não encontrava um interesse em fitar seu brinquedinho móvel, voltava o brilho de seus olhos negros para ela, solitariamente distante a poucos metros. Mas não demonstrava tamanha preocupação exorbitante. Em três segundos, retornava ao seu celular. A rotina se repetiu por algumas vezes. Mas por um deslize do destino, seus olhares se encontraram.
Ela manteve seu rosto rígido à medida que sua mente vagava solenemente por lembranças e lembranças de tamanha exatidão. O sorriso daquele olhar à sua frente foi a imagem borrada em sua mente que a impregnou imediatamente. Pensou em sorrir, mas seus lábios se cerraram. Tentou falar, mas sua voz foi domada pela inquietude da dúvida, pelas nuances do medo. Sua maior vontade era esbanjar um sorriso, como aqueles sorrisos bobos que amigos partilham após alguns goles alcoólicos e risos estúpidos que são resultados destes mesmos goles.
Ele a observou, mais rígido ainda. Seus olhos acarretavam um brilho certeiro, mas escondiam seus pensamentos. Suas pupilas a fitaram por completa. Da cabeça aos pés, passando pelo anel prateado do dedo. Mas nada em si, se manifestava positivamente ou negativamente.
Trinta segundos. Ambos voltaram ao que estavam fazendo anteriormente.
Voltaram ao batuque do anel e à luz de um mero celular.
O silêncio dos dois era notoriamente externo. Mas dentro de cada um, as águas do mar das dúvidas começavam a se movimentarem.
E o casal era apenas duas pessoas irrelevantes. Ambos não guardavam rancor um do outro, mas seus olhos não eram capazes de transmitir quaisquer sensações de conforto em que um soubesse que iria agradar o outro.
Talvez a vontade dela era apenas uma demonstração de carinho e amizade. E a dele, era apenas uma certeza de que estaria bem consigo mesmo e que os olhares duvidosos dela, se cessaram. Ela terminou o seu vinho e caminhou de volta para a sua casa.
Ele terminou seu champanhe, assim como a bateria do seu celular e voltou para o seu lar.
O casal se tornou irrelevante.
“A maior dor do mundo não é amar o incerto, e sim, alimentar dúvidas incertas” – dizia uma placa de saudação na porta do mesmo restaurante em que ambos estavam.

- Danilo Passos Santos
Posted by Danilo Passos (dono) On 11:40
A sensação de que nada à volta importa, domou-me por diversos instantes. Ou, assim dizendo, domou-nos por diversos momentos.
Todas as semanas, naquela tarde clássica de sexta-feira - que no verão estampava um sol ardente por entre as janelas da minha sala e no inverno trazia o cinza obscuro dos céus me recluindo para dentro de casa – aguçado pela alegria estupenda de se desfrutar do último dia de uma semana corrida, me pego ao pé de uma caixinha com fio, esperando que os sons de seu toque anuncie que me encontrarei com a sua doce voz.
São nuances de um objeto que começam a passar diante dos meus olhos. Vejo as delicadas teclas daquele modesto aparelho que se perde com as feições geométricas retangulares apossadas de um fio médio, que me assegura de que ouvirei os sons de suas palavras sendo pronunciadas delicadamente do outro lado da linha.
É notório. Quando os toques daquele telefone começam a eclodir pela sala, o ambiente se aquieta. As flores se acalmam com o vento e os pássaros cessam o seu canto. Caminho vagarosamente ao encontro daquele objeto que toca sem parar. Afobado e ansioso, nunca consigo registrar o número de toques que se escuta, antes de eu o tomar pelas mãos.
Três segundos é o silêncio que nos separa do seu primeiro “alô”. Logo, respondo com o mesmo substantivo e como em uma conversa programada, os nossos próximos diálogos, sempre são os mesmos. Com sua preocupação rotineira, você me pergunta se estou bem e repondo positivamente.
Quisera eu que pudesse inventar um aparelho telefônico capaz de captar expressões físicas e emocionais e transmitir para a outra pessoa do outro lado da linha. Assim você veria como as lágrimas começam a acampar em meus olhos negros e meus lábios se contorcem ao ponto de inventar sorrisos, enquanto meus ouvidos relaxam ao transmitir todas as palavras proferidas por seus lábios rosados.
Estamos em um mundo onde a distância é um dos últimos fatores a ser enfrentado, onde somos navegadores em um mar tecnológico que minimizam esta distância em que podemos nos ver, sem nos tocar. Mas nada disso superará a minha ansiedade exalante para ouvir a sua voz encantadora, que se perde em um sotaque cômico e em uma rouquidão galanteadora, ecoando em meus ouvidos por uma caixinha com fio. São as ternuras de imaginar como você está ou quais as suas expressões físicas e faciais durante aquela ligação, que me lisonjeia por completo.
E como em todas as tardes de sexta-feira, jogamos assunto fora, partilhamos aventuras que afloram e em cerca de quinze minutos, desligamos o telefone.
Termina a ligação.
As plantas retornam o seu balanço com o vento e os pássaros continuam o seu canto. Fico no aguardo para a próxima sexta-feira.
Não se pode acreditar que mediante a tudo isso, somos apenas amigos que partilham conversas sem malícias. Porém, queira saber como me sinto em todos os momentos antecedentes de sua ligação. Posso estar alimentando esperanças ilusórias, pois veja bem, semana passada encerramos nossa conversa em dez minutos, hoje em quinze... Espero que continue assim.
Porque se aumenta o que sinto em mim, quero que em todas as sextas feiras, aumente o tempo de eu ouvir a sua doce voz.

- Danilo Passos Santos

sábado, 24 de maio de 2014

Posted by Danilo Passos (dono) On 12:46



Querido, tome estas doses. Elas são doces como a luz reluzente em seus olhos castanhos, com o mesmo teor que lapida o brilho das suas pupilas que vêm de encontro a mim. Tão doces que sou capaz de provar quantas vezes eu quiser, com a mesma intensidade que provei o amargo do pó que transcorria por minha garganta, para me manter acordada por horas e poder te fitar solenemente, com a pressão do meu coração sendo entorpecida pela morbidez do seu sorriso. Lembro-me da linha fina que contornava os seus lábios rosados quando pela primeira vez fui de encontro com a brancura dos seus dentes ofuscada pela luz cintilante daquela sala clara em pleno início da noite, daquela primeira terça-feira de maio. Logo, comecei a contar os dias como se cada contagem fosse um presságio da eternidade que eu estaria ao seu lado. Mas enganei-me, a eternidade foi o peso das suas três palavras pronunciadas silabicamente nas primeiras horas da madrugada, oito dias após nos conhecermos sob a luz fluorescente de uma sala de espera em um hospital. O contorno delicado dos seus lábios apareceu na minha frente todos os dias durante mais de uma semana, enquanto eu comecei a mergulhar-me no dicionário, como um nadador mergulha com voracidade na piscina para alcançar o seu posto, apenas para escolher as mais sublimes palavras e te enaltecer ainda mais despertando sorrisos certeiros do seu rosto glacial. Sublimidade. 
Todas as frases que proferi naqueles papéis brancos, entregues simultaneamente todas as noites que nos encontrávamos, foram propositais para que os traços dos seus lábios se contorcessem em sorrisos divinos e fincassem em mim a sensatez do êxtase que massageava as paredes do meu coração. Felicidade é pleno êxtase. É a sensação de sentir cócegas em momentos inoportunos e estar seguramente estampando sorrisos bobos no próprio rosto. Quando ouvi a pronúncia de três palavras especiais sendo silabicamente proferidas dos seus lábios rosados sob a claridade de um abajur próxima à cama daquele solitário quarto de uma humilde residência de três cômodos, dissolvi sorrisos fulminantes em meus lábios e te retribui com a ternura dos meus beijos que eram ardentes quando iam de encontro aos seus dentes. “Eu te amo”, foi o termo que atribuí ao meu vocabulário diário e em todas as despedidas sutis pronunciava com a mesma intensidade dos seus sorrisos. Intensidade.
Os seus olhos. Eles me instigam ainda mais a conhecer as singularidades que estão escondidas em seu interior, da mesma forma que as simplicidades são expostas em seus toques pelo meu corpo. Mas seu olhar é duvidoso. Ele brilha ardentemente, porém, consegue esconder a força dos seus próprios pensamentos, me fazendo ficar cada vez mais intrigada com o teor dos seus pensamentos quando desenham a minha imagem em sua mente, digo, tenho receio das suas próprias convicções acerca das minhas euforias para dizer palavras bonitas e despertar os seus sorrisos. Vejo a claridade dos seus olhos, da mesma maneira que uma criança se confronta com as formas inusitadas dos brinquedos da loja mais movimentada da cidade; e desperto a curiosidade de estar cada vez mais motivada a fazer do brilho do seu olhar a sensação de bem-estar dentro de mim. Foram semanas ao seu lado e todos os movimentos dos teus lábios se contorcendo para me proporcionar os mais sublimes beijos, de modo a me transportar para uma leveza efêmera, todas as vezes que fechava os meus olhos e me decaia no paraíso escuro, sentindo apenas o fervor da sua pele se encostando a mim. Sentia-me na imensidão oceânica tentando nadar para o norte mais próximo, construindo uma fadiga exorbitante. Incomum.
Suas mãos são sempre delicadas e a maciez delas sob os objetos mais inusitados que você sempre carrega é indescritível. Sua leveza em segurar as xícaras de café, para encher-se de cafeína e produzir ainda mais, desperta em mim um desinteresse sem limite, mas me leva a compreender as suas simplicidades e inocência. Todas as suas perguntas vagam a minha mente e almejam por respostas concretas para que possamos continuar o nosso caminho que se perdura por poucos meses, mas que transcende uma felicidade imensa em mim mesma. Ouço o som das suas preocupações dançarem sob a minha mente, assim como, escuto o som do jazz e blues sendo cautelosamente pronunciados no rádio do carro em que todos os dias adentro ao seu lado, sempre na mesma estação rotineira. Rotineira.
Porém, sinto a sua segurança para me apoiar ainda mais e me manter nas quenturas dos seus braços, ao passo que os contornos dos seus lábios esboçam sorrisos ainda mais sutis para mostrar-me que a leveza da vida simples é a melhor escolha a ser definida. Ainda tento criar as suas próprias definições para mim, embora, o que demonstro cotidianamente a você, o leve para outra definição acerca de mim mesma. Seus entenderes compreendem-me. E no meio desta sala vazia e escura, sob a agulha nas mãos, eu te peço querido, tome estas doses. Ou melhor, injete-as. E transcreva na mesma intensidade que meus pensamentos entoam minha mente, por agora. 
Assim poderei voltar ainda mais extasiada ao seu encontro, para ser como sempre, de acordo com as suas descrições, uma Heroína.
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- Danilo Passos Santos
Posted by Danilo Passos (dono) On 12:42


Há quem diga que amar simplesmente acontece, sem nenhuma interrupção.
Rhuan Marcondes, homem de nome elegante, que também se fissurava à mesma denominação, não se encaixaria no grupo de opinadores românticos. Rhuan se submetia a ser reacional, objetivo, planejador. De fato, todos temos que ambiciar estas qualidades, se quisermos encontrar-nos em nossos sonhos. Sonhos necessitam deplanejamento e este de objetivos. Neste impasse, Rhuan tornou-se um célebre, bem conceituado profissionalmente, visador de um futuro, mas meras qualidades não mascaram os defeitos.Certo dia, quando retornava de seu trabalho, avistou em um outdoor uma sublime frase que se estampavacom as mais impreginantes letras, “Ah o amor… impossível não viver sem.”, a frase compunha uma campanha publicitária de uma grife famosa. Rhuan, sem dispensar sua racionalidade que transbordava a todo instante, fechou vagarosamente o vidro de seu carro e não hesitou em soltar um leve grunhido, acompanhado de um sorriso escárnio. Para que sua mente não se apoderasse à uma convicção amorosa, como na frase, imediatamente ele abriu sua agenda virtual, que saltava pela tela de seu moderno celular e, preocupou-se em realizar seus próximos afazeres profissionais. O desprezo por um sentimento único, era rotineiro, quando tratava-se de Rhuan Marcondes. Seus boêmios amigos o intitulavam como um “louco”, os mais íntimos colegas de um mero coração “de pedra”. Críticas voltadas à este âmbito, era como o cantar dos pássaros para o nosso protagonista.
Porém, como dissera Camões, “amor é fogo que arde sem se ver”, surge na modesta vida deste personagem, uma linda donzela. Ela estampava um olhar negro que se perdia nos detalhes de seu rosto branco. Seus cabelos, cacheados, ofuscavam os raios solares quando de dia, e se pincelavam com a luz refletida da lua, em noites estreladas. A doce donzela, surgiu como uma cliente interessada nos brilhantes projetos arquitetônicos de Marcondes. Com sua simpatia e simplicidade, conseguiu marcar um jantar, de negócios, com o nosso protagonista. “Dom Rhuan é quase que sinônimo de encantador e arrazador de corações”, dissera ela referindo-se a um personagem sedutor espanhol ao modesto coração de pedra, que não retrucou. Passado dias, Rhuan continuava com a sua ambição profissional, mas ela tornou-se diferentemente mudada. Sua agenda virtual de compromissos passou a estampar o nome da donzela dos cabelos cacheados e sua mente passou a processar detalhadamente o físico daquela doce mulher. Tornou-se rotineiro, a voz encantadora de sua simples cliente, pairando em seus ouvidos e o deixando fulminantemente extasiado. Sua êxtase, o levou ao ápice de seus sentimentos.
O nosso racionalista não hesitava em gastar com presentes e projetos que retirassem o brilho contente no olhar daquela moça. Rhuan afundou-se em filmes românticos e não enxergava os clichês que os roteiristas deixavam nas entrelinhas. Tornou-se emotivamente feliz e lisonjeadamente contente. Abriu mão do seu futuro e abiu as portas para um futuro ao lado daquela “aurora preciosa” como passou a defini-la. Perdeu projetos, afastou-se de amigos e neste impasse, ainda alegara sua racionalidade. Noutro dia, quando passou novamente pelo outdoor, não fechou o vidro de seu carro, mas retirou de seu bolso uma brilhante caixa preta que protegia uma aliança indescritivelmente magnífica. Ajeitou o seu penteado e soltou um leve sorriso cintilante, depois, partiu para o restaurante no qual, fizera uma reserva para dois. Ao engatar com o seu automóvel, amoleceu as pedras que esculpiam o seu coração.
Há quem diga que amar simplesmente acontece, sem nenhuma interrupção. 

- Danilo Passos Santos, 25 de Junho de 2013.