
Os olhos. Eles acarretam inúmeras mensagens que o silêncio dos nossos rostos se transfigura. Era um casal bonito a ser visto por olhos alheios, mas as boemias da noite escondiam memórias e lembranças que ambos vivenciaram, algumas delas infames.
Em mesas diferentes, ela batia na madeira escura, com certa frequência, o seu anel prateado em seu dedo anelar. Cada toque vibrava sutilmente o vidro da taça de vinho posta na sua frente. Seus pés tremiam, à medida que o mesmo o se movimentava de forma impaciente e sagaz. Não desviava seu olhar da brilhante taça que abastecia um vinho brilhoso, se comparado com a luz da lâmpada de um dos lustres que iluminavam aquele local.
Os olhos fitavam o nada. E o nada era o vazio da mesa, que se preenchia com o toque pulsante de seu anel sob a madeira escura e o modesto vidro apanhado com a bebida.
Há poucos metros dali, estava ele. Inquieto. Com o seu celular em mãos, como se a única coisa que realmente importasse naquele instante era ver letras sendo transfiguradas por uma tela pequena que refletia uma forte luz em seu rosto. Um celular e seus olhos ao encontro do objeto, não mascarava a solidão que também pairava naquela mesa. Madeira fria, um eixo de luz brilhante e uma taça, acompanhada de champanhe. Como em uma sincronia, ele também tremia os pés, impaciente.
Gestos mapeiam o silêncio e camuflam pensamentos.
Era um casal de desconhecidos, se algum desconhecido passasse por lá naquele momento. Escondiam pensamentos a todo instante.
Tudo se tornou apenas um mero cenário, quando de minutos em minutos, os olhares deles tentavam se cruzar. Era rotineiro. Ela parava de bater com o seu anel na mesa e olhava intimamente para o ponto próximo dali. Para ele, debruçando seus dedos sob a tela do celular, respondendo (ou por ora visualizando) a letras que ofuscavam seu olhar. Sem retorno, um gole de vinho a fazia retornar a atenção ao seu "nada" e ao som impactante de seu anel sobre a mesa.
Ele, quando em algum momento, não encontrava um interesse em fitar seu brinquedinho móvel, voltava o brilho de seus olhos negros para ela, solitariamente distante a poucos metros. Mas não demonstrava tamanha preocupação exorbitante. Em três segundos, retornava ao seu celular. A rotina se repetiu por algumas vezes. Mas por um deslize do destino, seus olhares se encontraram.
Ela manteve seu rosto rígido à medida que sua mente vagava solenemente por lembranças e lembranças de tamanha exatidão. O sorriso daquele olhar à sua frente foi a imagem borrada em sua mente que a impregnou imediatamente. Pensou em sorrir, mas seus lábios se cerraram. Tentou falar, mas sua voz foi domada pela inquietude da dúvida, pelas nuances do medo. Sua maior vontade era esbanjar um sorriso, como aqueles sorrisos bobos que amigos partilham após alguns goles alcoólicos e risos estúpidos que são resultados destes mesmos goles.
Ele a observou, mais rígido ainda. Seus olhos acarretavam um brilho certeiro, mas escondiam seus pensamentos. Suas pupilas a fitaram por completa. Da cabeça aos pés, passando pelo anel prateado do dedo. Mas nada em si, se manifestava positivamente ou negativamente.
Trinta segundos. Ambos voltaram ao que estavam fazendo anteriormente.
Voltaram ao batuque do anel e à luz de um mero celular.
O silêncio dos dois era notoriamente externo. Mas dentro de cada um, as águas do mar das dúvidas começavam a se movimentarem.
E o casal era apenas duas pessoas irrelevantes. Ambos não guardavam rancor um do outro, mas seus olhos não eram capazes de transmitir quaisquer sensações de conforto em que um soubesse que iria agradar o outro.
Talvez a vontade dela era apenas uma demonstração de carinho e amizade. E a dele, era apenas uma certeza de que estaria bem consigo mesmo e que os olhares duvidosos dela, se cessaram. Ela terminou o seu vinho e caminhou de volta para a sua casa.
Ele terminou seu champanhe, assim como a bateria do seu celular e voltou para o seu lar.
O casal se tornou irrelevante.
“A maior dor do mundo não é amar o incerto, e sim, alimentar dúvidas incertas” – dizia uma placa de saudação na porta do mesmo restaurante em que ambos estavam.
- Danilo Passos Santos
Em mesas diferentes, ela batia na madeira escura, com certa frequência, o seu anel prateado em seu dedo anelar. Cada toque vibrava sutilmente o vidro da taça de vinho posta na sua frente. Seus pés tremiam, à medida que o mesmo o se movimentava de forma impaciente e sagaz. Não desviava seu olhar da brilhante taça que abastecia um vinho brilhoso, se comparado com a luz da lâmpada de um dos lustres que iluminavam aquele local.
Os olhos fitavam o nada. E o nada era o vazio da mesa, que se preenchia com o toque pulsante de seu anel sob a madeira escura e o modesto vidro apanhado com a bebida.
Há poucos metros dali, estava ele. Inquieto. Com o seu celular em mãos, como se a única coisa que realmente importasse naquele instante era ver letras sendo transfiguradas por uma tela pequena que refletia uma forte luz em seu rosto. Um celular e seus olhos ao encontro do objeto, não mascarava a solidão que também pairava naquela mesa. Madeira fria, um eixo de luz brilhante e uma taça, acompanhada de champanhe. Como em uma sincronia, ele também tremia os pés, impaciente.
Gestos mapeiam o silêncio e camuflam pensamentos.
Era um casal de desconhecidos, se algum desconhecido passasse por lá naquele momento. Escondiam pensamentos a todo instante.
Tudo se tornou apenas um mero cenário, quando de minutos em minutos, os olhares deles tentavam se cruzar. Era rotineiro. Ela parava de bater com o seu anel na mesa e olhava intimamente para o ponto próximo dali. Para ele, debruçando seus dedos sob a tela do celular, respondendo (ou por ora visualizando) a letras que ofuscavam seu olhar. Sem retorno, um gole de vinho a fazia retornar a atenção ao seu "nada" e ao som impactante de seu anel sobre a mesa.
Ele, quando em algum momento, não encontrava um interesse em fitar seu brinquedinho móvel, voltava o brilho de seus olhos negros para ela, solitariamente distante a poucos metros. Mas não demonstrava tamanha preocupação exorbitante. Em três segundos, retornava ao seu celular. A rotina se repetiu por algumas vezes. Mas por um deslize do destino, seus olhares se encontraram.
Ela manteve seu rosto rígido à medida que sua mente vagava solenemente por lembranças e lembranças de tamanha exatidão. O sorriso daquele olhar à sua frente foi a imagem borrada em sua mente que a impregnou imediatamente. Pensou em sorrir, mas seus lábios se cerraram. Tentou falar, mas sua voz foi domada pela inquietude da dúvida, pelas nuances do medo. Sua maior vontade era esbanjar um sorriso, como aqueles sorrisos bobos que amigos partilham após alguns goles alcoólicos e risos estúpidos que são resultados destes mesmos goles.
Ele a observou, mais rígido ainda. Seus olhos acarretavam um brilho certeiro, mas escondiam seus pensamentos. Suas pupilas a fitaram por completa. Da cabeça aos pés, passando pelo anel prateado do dedo. Mas nada em si, se manifestava positivamente ou negativamente.
Trinta segundos. Ambos voltaram ao que estavam fazendo anteriormente.
Voltaram ao batuque do anel e à luz de um mero celular.
O silêncio dos dois era notoriamente externo. Mas dentro de cada um, as águas do mar das dúvidas começavam a se movimentarem.
E o casal era apenas duas pessoas irrelevantes. Ambos não guardavam rancor um do outro, mas seus olhos não eram capazes de transmitir quaisquer sensações de conforto em que um soubesse que iria agradar o outro.
Talvez a vontade dela era apenas uma demonstração de carinho e amizade. E a dele, era apenas uma certeza de que estaria bem consigo mesmo e que os olhares duvidosos dela, se cessaram. Ela terminou o seu vinho e caminhou de volta para a sua casa.
Ele terminou seu champanhe, assim como a bateria do seu celular e voltou para o seu lar.
O casal se tornou irrelevante.
“A maior dor do mundo não é amar o incerto, e sim, alimentar dúvidas incertas” – dizia uma placa de saudação na porta do mesmo restaurante em que ambos estavam.
- Danilo Passos Santos
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