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sábado, 14 de junho de 2014

Posted by Danilo Passos (dono) On 11:40
A sensação de que nada à volta importa, domou-me por diversos instantes. Ou, assim dizendo, domou-nos por diversos momentos.
Todas as semanas, naquela tarde clássica de sexta-feira - que no verão estampava um sol ardente por entre as janelas da minha sala e no inverno trazia o cinza obscuro dos céus me recluindo para dentro de casa – aguçado pela alegria estupenda de se desfrutar do último dia de uma semana corrida, me pego ao pé de uma caixinha com fio, esperando que os sons de seu toque anuncie que me encontrarei com a sua doce voz.
São nuances de um objeto que começam a passar diante dos meus olhos. Vejo as delicadas teclas daquele modesto aparelho que se perde com as feições geométricas retangulares apossadas de um fio médio, que me assegura de que ouvirei os sons de suas palavras sendo pronunciadas delicadamente do outro lado da linha.
É notório. Quando os toques daquele telefone começam a eclodir pela sala, o ambiente se aquieta. As flores se acalmam com o vento e os pássaros cessam o seu canto. Caminho vagarosamente ao encontro daquele objeto que toca sem parar. Afobado e ansioso, nunca consigo registrar o número de toques que se escuta, antes de eu o tomar pelas mãos.
Três segundos é o silêncio que nos separa do seu primeiro “alô”. Logo, respondo com o mesmo substantivo e como em uma conversa programada, os nossos próximos diálogos, sempre são os mesmos. Com sua preocupação rotineira, você me pergunta se estou bem e repondo positivamente.
Quisera eu que pudesse inventar um aparelho telefônico capaz de captar expressões físicas e emocionais e transmitir para a outra pessoa do outro lado da linha. Assim você veria como as lágrimas começam a acampar em meus olhos negros e meus lábios se contorcem ao ponto de inventar sorrisos, enquanto meus ouvidos relaxam ao transmitir todas as palavras proferidas por seus lábios rosados.
Estamos em um mundo onde a distância é um dos últimos fatores a ser enfrentado, onde somos navegadores em um mar tecnológico que minimizam esta distância em que podemos nos ver, sem nos tocar. Mas nada disso superará a minha ansiedade exalante para ouvir a sua voz encantadora, que se perde em um sotaque cômico e em uma rouquidão galanteadora, ecoando em meus ouvidos por uma caixinha com fio. São as ternuras de imaginar como você está ou quais as suas expressões físicas e faciais durante aquela ligação, que me lisonjeia por completo.
E como em todas as tardes de sexta-feira, jogamos assunto fora, partilhamos aventuras que afloram e em cerca de quinze minutos, desligamos o telefone.
Termina a ligação.
As plantas retornam o seu balanço com o vento e os pássaros continuam o seu canto. Fico no aguardo para a próxima sexta-feira.
Não se pode acreditar que mediante a tudo isso, somos apenas amigos que partilham conversas sem malícias. Porém, queira saber como me sinto em todos os momentos antecedentes de sua ligação. Posso estar alimentando esperanças ilusórias, pois veja bem, semana passada encerramos nossa conversa em dez minutos, hoje em quinze... Espero que continue assim.
Porque se aumenta o que sinto em mim, quero que em todas as sextas feiras, aumente o tempo de eu ouvir a sua doce voz.

- Danilo Passos Santos

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