
Querido, tome estas doses. Elas são doces como a luz reluzente em seus olhos castanhos, com o mesmo teor que lapida o brilho das suas pupilas que vêm de encontro a mim. Tão doces que sou capaz de provar quantas vezes eu quiser, com a mesma intensidade que provei o amargo do pó que transcorria por minha garganta, para me manter acordada por horas e poder te fitar solenemente, com a pressão do meu coração sendo entorpecida pela morbidez do seu sorriso. Lembro-me da linha fina que contornava os seus lábios rosados quando pela primeira vez fui de encontro com a brancura dos seus dentes ofuscada pela luz cintilante daquela sala clara em pleno início da noite, daquela primeira terça-feira de maio. Logo, comecei a contar os dias como se cada contagem fosse um presságio da eternidade que eu estaria ao seu lado. Mas enganei-me, a eternidade foi o peso das suas três palavras pronunciadas silabicamente nas primeiras horas da madrugada, oito dias após nos conhecermos sob a luz fluorescente de uma sala de espera em um hospital. O contorno delicado dos seus lábios apareceu na minha frente todos os dias durante mais de uma semana, enquanto eu comecei a mergulhar-me no dicionário, como um nadador mergulha com voracidade na piscina para alcançar o seu posto, apenas para escolher as mais sublimes palavras e te enaltecer ainda mais despertando sorrisos certeiros do seu rosto glacial. Sublimidade.
Todas as frases que proferi naqueles papéis brancos, entregues simultaneamente todas as noites que nos encontrávamos, foram propositais para que os traços dos seus lábios se contorcessem em sorrisos divinos e fincassem em mim a sensatez do êxtase que massageava as paredes do meu coração. Felicidade é pleno êxtase. É a sensação de sentir cócegas em momentos inoportunos e estar seguramente estampando sorrisos bobos no próprio rosto. Quando ouvi a pronúncia de três palavras especiais sendo silabicamente proferidas dos seus lábios rosados sob a claridade de um abajur próxima à cama daquele solitário quarto de uma humilde residência de três cômodos, dissolvi sorrisos fulminantes em meus lábios e te retribui com a ternura dos meus beijos que eram ardentes quando iam de encontro aos seus dentes. “Eu te amo”, foi o termo que atribuí ao meu vocabulário diário e em todas as despedidas sutis pronunciava com a mesma intensidade dos seus sorrisos. Intensidade.
Os seus olhos. Eles me instigam ainda mais a conhecer as singularidades que estão escondidas em seu interior, da mesma forma que as simplicidades são expostas em seus toques pelo meu corpo. Mas seu olhar é duvidoso. Ele brilha ardentemente, porém, consegue esconder a força dos seus próprios pensamentos, me fazendo ficar cada vez mais intrigada com o teor dos seus pensamentos quando desenham a minha imagem em sua mente, digo, tenho receio das suas próprias convicções acerca das minhas euforias para dizer palavras bonitas e despertar os seus sorrisos. Vejo a claridade dos seus olhos, da mesma maneira que uma criança se confronta com as formas inusitadas dos brinquedos da loja mais movimentada da cidade; e desperto a curiosidade de estar cada vez mais motivada a fazer do brilho do seu olhar a sensação de bem-estar dentro de mim. Foram semanas ao seu lado e todos os movimentos dos teus lábios se contorcendo para me proporcionar os mais sublimes beijos, de modo a me transportar para uma leveza efêmera, todas as vezes que fechava os meus olhos e me decaia no paraíso escuro, sentindo apenas o fervor da sua pele se encostando a mim. Sentia-me na imensidão oceânica tentando nadar para o norte mais próximo, construindo uma fadiga exorbitante. Incomum.
Suas mãos são sempre delicadas e a maciez delas sob os objetos mais inusitados que você sempre carrega é indescritível. Sua leveza em segurar as xícaras de café, para encher-se de cafeína e produzir ainda mais, desperta em mim um desinteresse sem limite, mas me leva a compreender as suas simplicidades e inocência. Todas as suas perguntas vagam a minha mente e almejam por respostas concretas para que possamos continuar o nosso caminho que se perdura por poucos meses, mas que transcende uma felicidade imensa em mim mesma. Ouço o som das suas preocupações dançarem sob a minha mente, assim como, escuto o som do jazz e blues sendo cautelosamente pronunciados no rádio do carro em que todos os dias adentro ao seu lado, sempre na mesma estação rotineira. Rotineira.
Porém, sinto a sua segurança para me apoiar ainda mais e me manter nas quenturas dos seus braços, ao passo que os contornos dos seus lábios esboçam sorrisos ainda mais sutis para mostrar-me que a leveza da vida simples é a melhor escolha a ser definida. Ainda tento criar as suas próprias definições para mim, embora, o que demonstro cotidianamente a você, o leve para outra definição acerca de mim mesma. Seus entenderes compreendem-me. E no meio desta sala vazia e escura, sob a agulha nas mãos, eu te peço querido, tome estas doses. Ou melhor, injete-as. E transcreva na mesma intensidade que meus pensamentos entoam minha mente, por agora.
Assim poderei voltar ainda mais extasiada ao seu encontro, para ser como sempre, de acordo com as suas descrições, uma Heroína.
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- Danilo Passos Santos
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