DOWNLOAD

DOWNLOAD

sábado, 24 de maio de 2014

Posted by Danilo Passos (dono) On 12:40

“O que me matou?”. Ela foi delicada com as suas palavras quando me fez esta sublime pergunta. Tentei desviar o olhar, ao passo que carregava nas mãos uma modesta taça barata com um pouco de Martini e uma azeitona para enfeitar aquele tom esverdeado, que fazia jus ao frio do lado de fora e a solidão daquela sala. E as lágrimas decaiam dos olhos dela sem hesitar o brilho certeiro dos seus lábios. Por ventura, o brilho que eles extraiam era do lustre acima de nós, que reluzia uma luz fraca, capaz de cegar quaisquer feições que me atentaria. Coloquei o Martini na mesa e continuei a fitá-la, ou assim dizendo, a assistir suas próprias feições enigmáticas. 
Com suas unhas delicadas tocou no vidro barato da taça barata e desviou o olhar para as folhas verdes da árvore do jardim que carregavam o peso sereno da noite serena. A pequena escuridão só não era vasta, devido à luz que florescia o esverdeado. Ela atentou-se ao afora e tentou-se disfarçar o peso dos seus olhos. 
“O que me matou?”. O soar das suas palavras ainda eram monótonos. Ela levou um gole da bebida aos seus doces lábios, lambeu-os e em seguida fitou o anel de esmeralda em seu dedo médio da mão esquerda. Não pude deixar de reparar em suas nuances e no silêncio que aquela sala começava a aplumar. 
O canto da coruja não se fazia presente, assim como o som dos grilos sob a noite estrelada. A fraqueza da luz do lustre reluzia o brilho intenso de seu vestido simples que se tornara esverdeadamente bonito. Foram minutos de silêncio, olhares trocados para a copa das árvores, o Martini esquentando e o anel sendo o centro das atenções. Eu mantive o meu silêncio, enquanto ela manteve a sua seriedade sólida. Enquanto ela manteve o drama da solidão. 
“O que me matou?”. A sua pergunta ainda era a incógnita que jamais pude decifrar minunciosamente. Ela desviou a sua atenção do anel e virou-se diretamente para mim. Foi rápido. Doloroso e rápido. Três cortes na garganta e observei os tons vermelhos se acoplando aos tons frios da mesa, enquanto o seu braço decaía sob a mesma, seus olhos fechavam e o Martini espatifava-se no chão.
O líquido esverdeado escorria sendo misturado com o avermelhado, formando uma cor indecifrável, porém, bela.
Mantive a seriedade e a fitei no seu fim. As mãos sujas desapegaram-se da faca. E a sua pergunta ainda perdurava em minha mente, como um zumbido sem fim. 
“O que me matou?”. Ainda tentava responder ao que ela tanto queria. 
Enxuguei os meus olhos verdes (que tanto fora elogiados) e contentei-me com:
“O que te matou foi o amor”. 
- Danilo Passos

0 comentários:

Postar um comentário