O outono frio de abril de 1992 era pincelado com as folhas decaídas no chão de uma dança do vento que respaldava nas copas das árvores. A boemia da cidade noturna perpassava por uma quietude plena, a dizer, pelos jovens que perambulavam pelas ruas da capital, segurando garrafas de cerveja e cantarolando como se a noite fosse eterna. Tão eterna que o frio daquela terceira segunda-feira de janeiro se misturava a garoa fina e não prejudicava o movimento noturno da capital. Juliano estava convicto daquela situação, quando fitava o vazio de sua mesa no bar sob o cheiro exorbitante de um uísque importado, alguns cigarros jogados e as pernas cruzadas de modo a disfarçar o seu nervosismo.
O bar era solitário com pouca iluminação, transformando aquele ambiente em um aconchego clandestino, daqueles que você não sabe o teor da segurança, pois, por mais que se pareça seguro, pode não ser. Ele revirava os olhos e de pernas cruzadas brincava com os tabacos queimados na mesa. Juliano se alimentava da sua própria solidão, mas naquela chuvosa noite de segunda-feira, ele perpassava uma inquietude fora de seu hábito, mesmo que tentasse disfarçar com o olhar, quando as prostitutas passeavam do lado de fora e agarravam-se ao vidro só para apreciar rapidamente a beleza infame de Juliano. Os olhos castanhos, a pele branca, os cabelos marrons e a estatura média.
- Desculpe-me a demora – disse o moreno de paletó preto, secando a própria roupa com as mãos e se assentando na cadeira para estar frente a frente com Juliano. – Pelo visto, você está bastante ansioso – indagou, observando as dezenas bicudas de cigarro jogadas à mesa.
- Poupe-me das suas indagações – insultou Juliano.
Os dois se encararam por longos dez segundos e as prostitutas continuavam a se agarrarem ao vidro. Agora em bando. Eram dois homens para se apreciar.
- Alemão – Juliano levantou seu copo de uísque oferecendo ao homem.
Ele sorriu.
- Não estou acostumado com estas regalias – indagou.
- Pois, acostume-se, você merece.
Juliano insistiu novamente e o homem tomou o copo de suas mãos. Degustou um gole e retribuiu com uma fisionomia amarga.
- É quente – concluiu.
- Deixe descer pela garganta, suas palavras voltarão em breve.
O homem não entendera.
- Uísque é como a paixão. Ele desce ardente pela garganta, unindo-se em nossas cordas vocais e somente quando a quentura se desfaz, voltamos a nossa essência. Um processo rápido – Juliano retirou um cigarro do bolso – a paixão mata as nossas próprias palavras quando estamos diante de alguém, pelo qual nos apaixonamos. É uma ternura. Mata palavras.
Juliano acendeu o cigarro e o pôs em cima da mesa.
O homem o fitou instigado. O cigarro queimava em meio às bicudas.
- Deixe queimar. Quando eu observo a chama desse tabaco, sinto-me ainda mais vivo. Estou queimando a minha própria morte. Pois, se eu colocasse isto na boca, culminaria em um vício, que me levaria à morte.
- Você está sendo radicalista – disse o homem.
Juliano sorriu.
- É viável a quentura de um uísque, mas a toxina de um tabaco, pode não surtir o mesmo resultado. Chamo isso de autocontrole.
O homem se esticou na cadeira.
- O álcool é um vício – lançou um sorriso sarcástico.
Juliano o fitou ironicamente e tomou mais um gole de sua bebida.
- Duas vezes por semana e quatro doses? Pretendo não aumentar.
E lançou mais um olhar irônico.
Aquela noite de segunda-feira reluzia um bar vazio, acoplado com algumas mesas ocupadas e alguns casais trocando conversas banais ao redor. As mulheres do cabaré do fim da rua ainda se agarravam fogosas ao vidro do bar. A luz fraca, próxima ao hall de saída, iluminava a mesa em que Juliano estava. Um pequeno silêncio entornou por vastos dois minutos, de modo com que o homem, entediado com o diálogo monótono, arrumava o próprio paletó repetitivamente e voltava o seu olhar para Juliano, de cabeça baixa, fitando o uísque.
- Quem é você? – o homem finalmente perguntou.
- O acordo é não debatermos pessoalidades – Juliano não levantou o seu rosto.
- Eu não estou acostumado com pessoas como você – indagou.
- Que bebem uísque importado e queimam cigarros?
- Não. Digo, de não querer uma amizade. Porque todas as vezes que nos encontramos deparo-me apenas com os seus silêncios e olhares.
Juliano levou os seus olhos de encontro ao homem.
- Discutimos poesias. Sempre fazemos isso.
- Ocasionalmente – o homem levou as mãos para o bolso do seu paletó. – Hoje não trouxe nenhuma poesia.
Juliano descruzou as pernas e terminou a dose de uísque. Soltou um breve arroto quente e empurrou todos os tabacos queimados para o chão do bar.
- Eu gosto do que faço. Eu me encontro. Quando todas as segundas-feiras me dirijo a este local e nos encontramos sob as doses de uísque e cigarros queimados na madeira desta mesa. Quando os seus lábios pronunciam as mais exorbitantes poesias e ficamos por duas horas discutindo as sílabas poéticas de maior entonação.
O homem soltou um breve suspiro.
- Fazemos isso há cinco semanas seguida. Desde quando você veio me procurar. Eu nunca lidei com pessoas como você, Juliano. E você não sabe nem o meu nome.
- Pessoalidades não se fazem necessárias. Meus olhos acharam agradáveis a sua figura naquela esquina e percebi que você seria uma ótima companhia.
Juliano retirou mais um cigarro do seu bolso.
- Desde o nosso primeiro encontro, estou esperando que…
- Não termine – ele interrompeu e acendeu o tabaco. – Não cabe mais a mim, quaisquer laços de afinidade, além do que já temos.
Enquanto o cigarro queimava sob a mesa. O garçom se aproximou e Juliano pediu mais uma dose do uísque alemão e um vinho tinto francês para o homem.
- Sei que recebo integralmente, mesmo nessas condições, mas gostaria que tivéssemos algo a mais – disse o homem, enquanto o garçom se retirava. – Digo, no aspecto profissional que exerço.
Juliano sorriu.
- O seu profissionalismo pode virar o meu trauma. E eu já tenho um.
- Então, por que não uma mulher, para estar aqui? – indagou o homem.
O garçom retornou com a dose e a taça de vinho. E se retirou rapidamente.
- Eu estou apagando o brilho dos olhos da última mulher da minha vida. A plenitude aquele olhar fincou em minha mente de uma maneira absurdamente inegável. Como um diamante reluz aos olhos do polidor. De uma intensidade mordaz que meus batimentos cardíacos ganham um ritmo frenético.
O homem levou um gole do seu vinho à boca.
- Talvez você precise de outros olhos femininos.
- Já estou cego há dois meses.
Os dois fitaram um ao outro por longos dez segundos.
- Vou-me embora pra Passárgada, lá serei feliz – Juliano pronunciou silabicamente.
- Que lugar é esse?
- A imaginação de Bandeira – ele levou um gole do uísque aos seus lábios. – Todos os dias procuro Passárgada, mas acho que aqui… – olhou em sua volta. –… É a cidade.
O homem respirou fundo e levou suas mãos ao encontro das mãos delicadas de Juliano debruçadas sob a mesa.
- Poderemos descobrir este lugar, fora daqui – sorriu.
Juliano desencostou seus dedos do homem e o fitou cautelosamente.
- O toque delicado de alguém é apenas um presságio do que os olhos mapeiam. De belezas e desejos. Eu não tenho nada disso. Isso me levaria a outros ares, nos quais já passei e não almejo voltar. Como Tolstoi dizia, “o amor começa quando uma pessoa se sente só e termina quando uma pessoa deseja estar só”.
O homem se sentiu desconfortável.
- Eu sou um profissional e intimamente, acho que você deveria superar isso, eu posso ajudá-lo – indagou friamente.
- Então prove – Juliano lançou um olhar frenético.
O homem branco dos olhos castanhos retirou de debaixo da mesa uma caixa retangular de porte médio, coberta com um papel pardo. Deixando-a intimamente misteriosa.
- O que é isso? – ele perguntou curioso.
- Abra quando chegar à sua casa. E nos veremos na próxima semana. No mesmo horário habitual.
Juliano se levantou e jogou quatrocentos cruzeiros na mesa.
- Seu pagamento e feche a conta – e partiu.
O homem terminou com a sua taça de vinho, tomou a caixa nas mãos e caminhou em direção à sua casa. Um pequeno apartamento a sete quarteirões do bar. Esquivou-se dos olhares das pessoas ao longo do caminho, instigadas com a embalagem em mãos e com a sua pressa voraz. Chegou a seu apartamento, assentou-se no sofá, ligou o único abajur próximo à escrivaninha que ficava abaixo de dois quadros baratos e começou a desembrulhar a caixa.
Quando retirou todo o papel abriu-a e deparou-se com um grande envelope branco. Abriu-o cautelosamente e após, surpreendentemente, perceber o peso de um objeto, retirou uma faca prateada pontuda e um papel marfim.
Abriu o marfim e leu o que estava transcrito nele.
“Dois golpes e chegarei à cidade que tanto quero estar”.
O homem sentiu mais um peso no envelope e quando enfiou a mão, encontrou um bolo com centenas de dólares, agrupadas sob um elástico fino.
O outono frio de abril de 1992 era pincelado com as folhas decaídas no chão de uma dança do vento que respaldava nas copas das árvores e a solidão absurda dos boêmios da cidade noturna, oriunda de desilusões amorosas.
[x]
- Danilo Passos

0 comentários:
Postar um comentário